Para defensora das mulheres, transexual era homem
AQUILES EMIR
Corriam os anos 1980. O período, tal como agora, era contaminado pelas mais diversas e confusas ideias políticas, e onde quer que estivéssemos, conversando sobra qualquer assunto, do futebol ao carnaval, alguém sempre trazia suas ideias revolucionárias para o centro do debate.
Vivíamos os instantes finais do ciclo militar e muitos se armavam de ódio e vingança para o momento em que protagonistas e coadjuvantes do regime em queda iriam prestar contas dos seus atos. Poucos não podiam sequer imaginar que, na democracia, coadjuvantes passariam a ser protagonistas; figurantes, coadjuvantes; e protagonistas, figurantes.
Filiado ao PDT, eu também comungava de ideias esquisitas que o tempo depois iria me mostrar o quanto estava iludido e perdendo meu tempo com questões que em nada iriam servir para mudar o mundo para melhor.
Uma das correntes de ativismo mais aguerridas naqueles tempo era a do feminismo, mas este também sob o olhar de hoje estaria errado em alguns pontos, embora defensores de femininos possam achar que em parte algumas militantes estavam certas.
Recordo que num cair da tarde, sentado numa mesa de bar em frente ao antigo Hotel Central, na Praça Benedito Leite, Centro Histórico de São Luís (capital do Maranhão), estava reunido com camaradas, companheiros etc, quando uma aguerrida petista militante do feminismo começou a se contrapor ao machismo, classificando quase todos nós seres masculinos como machistas.
Querendo me contrapor e ao mesmo tempo imaginando que poderia trazer uma questão mais descontraída, resolvi enaltecer a figura de Roberta Close, a famosa transexual feminina que era uma das personagens mais debatidas na mídia, com direito a capa de revistas, entrevistas na TV, desfile de modas etc, isso ainda antes da cirurgia para readequação de sexo.
“A mulher mais bonita do Brasil é um homem”, disse eu numa frase que para os dias de hoje seria politicamente incorreta, grosseira, preconceituosa…, e a feminista da mesa não perdeu tempo:
“Essa pessoa tem vagina? Essa pessoa tem útero? Essa pessoa menstrua? Essa pessoa pode engravidar? Essa pessoa pode amamentar?”
Assustado com a reação, fiquei em silêncio, e a feminista para encerrar com chave de ouro sua argumentação:
“Essa pessoa de quem você está falando usa roupas de mulher, se comporta como mulher, usa nome de mulher, mas é homem, fique sabendo, e nunca mais diga que é uma mulher, pois não é. Eu sou mulher!”.
Assim como essa amiga com quem há muito não privo de conversas e outras atividades, muitas feministas encaravam a transexualidade como aberração, pois para elas esse novo ser trazia para a sociedade um comportamento que as mulheres avançadas rejeitam: submissão.
Mas os tempos mudaram e hoje são as feministas que levantam a bandeira dessas pessoas e tratam de inseri-las no esporte, na moda, na propaganda, na política, com uma distinção, muitas das vezes, até maior do que dão às mulheres biológicas.
Pensei neste episódio de quatro décadas atrás, agora em que está em debate o pedido de cassação e até prisão de um deputado por ter defendido, sem querer ou até mesmo sem saber, uma ideia que até feministas comungavam: a transexualidade colocando feminilidade em segundo plano.
O Mundo realmente está mudando, ou melhor, já está mudado!



