Homenagem aos cem anos de O Imparcial

A data não saberia precisar, mas o mês era agosto e o ano, 1982. Nas primeiras horas da manhã daquele dia escalei os degraus da escada em estilo caracol do majestoso casarão colonial da Rua Formosa, no Centro Histórico de São Luís, para um salto que iria dar à minha vida o destino a que me apegara tanto: compor a equipe de jornalistas de um grande jornal do Maranhão, e ele era O Imparcial, o mais tradicional veículo da imprensa maranhense, que, por muitos anos foi, continua sendo e ainda será um dos pulmões da sociedade livre do Maranhão.
Ninguém conseguiria medir a emoção do que vivia naquele momento, algo que só poderia ser obra do acaso, um acidente da natureza, tamanha a possibilidade, no passado, de não se realizar.
Recém-chegado do interior do estado, da cidade de Pindaré-Mirim, estava colocando em prática o projeto alimentado na infância e na adolescência, o de ser um comunicador social, rompendo todos os obstáculos que a vida criou para obstacular esse projeto.
Lembro de quanto era difícil, mas prazeroso, ter acesso a um exemplar de jornal, quando menino e adolescente, o que se dava somente quando o acaso fazia alguém chegado da capital permitir o compartilhamento daquele tipo de leitura. Outro meio era extrair um exemplar das pilhas vendidas como papel usado que alguns vendedores dessas sobras levavam para atender pedidos de comerciantes para embrulhar mercadorias.
Revistas também eram artigos de raridade; televisão nem pensar e o rádio era o meio mais acessível e o que permitia alimentar um sonho de também algum dia poder noticiar os fatos.
Quando cheguei à capital, um dos hábitos que tinha era passear pela ruas da cidade, a pé ou de ônibus, e me encantava na Rua Formosa passar em frente às sedes de O Imparcial e do Jornal Pequeno, que tinham esse mesmo endereço. Olhava e achava inacessíveis a ponto de me questionar se um dia, realmente, seria um jornalista, e a obra do acaso deu-se quando ingressei na faculdade de Comunicação Social da Universidade Federal do Maranhão, pois lá passei a conviver com o jornalista Pedro Freire, então diretor dos Diários Associados no Maranhão, que também cursava a universidade, e, para minha sorte, era devedor de uma das cadeiras do primeiro período, portanto nos tornamos colegas de sala de aula.
Graças a Pedro Freire, fui convidado a fazer um teste, e que desafio, pois nem datilografia sabia, mas aprendi a manejar uma maquina sem usar todos os dedos, apenas um de cada mão, o que até hoje é meu hábito para manusear computador e outros tipos de teclados.
Admitido com remuneração de CR$ 14.000,00 (quatorzemil cruzeiros), carteira assinada como “contato de publicidades”, passei a conviver, na Redação, com grandesnomes do Jornalismo de então: Raimundo Borges, Haroldo Silva, Douglas Cunha, José Ribamar Rocha Gomes (Gojoba), Neres Pinto, Mauro Jorge, Maria Inês Saboia, Almeida Pontes, Pedro Freire, Ribamar Pinheiro, Sílvia Teresa e muitos outros, e depois estas relações foram se ampliando e se renovando.
Pois bem, de 1982 aos dias de hoje, como repórter de O Imparcial ou apenas colaborador deste tradicional jornal, pude acompanhar de perto fatos marcantes, com a volta das eleições diretas para governador e mais tarde para prefeito de capital, o fim do regime de exceção iniciado em 1964, a eleição presidencial de 1989, a queda do Muro de Berlim, conquistas de duas copas do Mundo (1994 e 2002) e muitos outros acontecimentos marcantes.
Graças ainda a O Imparcial pude dar uma outra guinadaimportante na minha vida.
Militante do PDT, ali cheguei “brizolistas”, acreditando que os movimentos de esquerda iriam mudar o mundo, mas quando o bolso falou mais alto passei a enveredar pelo meio empresarial, atuando junto a entidades empresarias, tendo forte convivência com entidades patronais – Associação Comercial do Maranhão, Federação das Indústrias, Federação do Comércio – o que facilitou trabalhar como editor de uma coluna voltada para as classes produtoras – Empresas e Empresários – e assim passei a me dedicar mais ao jornalismo empresarial, econômico, chegando à categoria de editor desta área.
Muita coisa mudou. Hoje os meios de comunicação se reformularam totalmente, e muitos até questionam a importância da imprensa tradicional, já que qualquer um pode, por aparelho de celular, usar sua influência, narrar o fato que testemunha, interagir com autoridades, artistas, líderes empresariais, desportistas e outros.
Penso deferente. Ainda acho que a verdadeira imprensa precisa ser valorizada e mantida, até porque ninguém consegue tratar os fatos como um profissional de Jornalismo. Basta ver o exemplo de O Imparcial, que há anos tem uma importância de alta relevância para a boa informação e a formação de opinião que muito ajudaram o Maranhão a ser o que é, um estado de prosperidade, de liberdade, de vasta cultura…, apesar das dificuldades e das estatísticas contrárias.
Parabéns, pois, a todos que fazem o Imparcial por este centenário. Votos de que outros cem anos sejam alcançados, e festejados. Pena não poder estar lá novamente!

