Ex-prefeito Jânio Quadros reprimiu prática em São Paulo
AQUILES EMIR
Neste domingo (28), dia em que pela segunda vez a maranhense Rayssa Leal subiu ao pódio olímpico pela conquista de medalhas na modalidade Skate Street ( foi Prata em Tóquio 2000 e Bronze agora em 2024 em Paris), a jornalista Thaís Carrança, em artigo na BBB News, lembra que esse esporte já foi proibido no Brasil. A proibição veio em 1986, cidade de São Paulo, pelo então prefeito Jânio Quadros, e só voltou a ser permitido em 1988, por decisão de sua sucessora, Luiza Erundina.
Na abertura de sua reportagem Carrança destaca um trecho do artigo que o skatista Flávio Bolota escreveu para a revista Owerall contra a medida de Jânio Quadros:
“Eu quero mais é asfalto e concreto, para pegar meu skate e sair por aí gastando minhas rodas, descendo e subindo ladeiras puxado por ônibus, dropar de muros, horrorizar o trânsito, achar transições para uma boa diversão, entrar na contramão, subir guias, etc. Por quê? Por que nós amamos isto, vivemos disto!!!”
Em agosto daquele ano, o então prefeito de São Paulo daria sua primeira ordem para proibir o skate no Parque do Ibirapuera. Dois anos depois, a ordem para reprimir viraria proibição oficial, posteriormente estendida para toda a cidade de São Paulo.
Inconformados com a proibição, skatistas paulistanos organizaram uma manifestação, que reuniu cerca de duzentos participantes.
“Eles foram de skate do metrô Paraíso ao parque do Ibirapuera, com a intenção de entregar uma carta com mais de 6 mil assinaturas pedindo a reconsideração da proibição e a construção de uma pista no local ou em outra área pública”, recorda a jornalista.
O prefeito, que ordenou aos seguranças fecharem os portões de acesso ao parque e impedissem a entrada dos skatistas, além de não receber os manifestantes, decidiu levar a proibição para toda a cidade de São Paulo.
O historiador Leonardo Brandão destaca que a proibição da capital paulista não foi a única. Muitos municípios brasileiros proibiram o skate nas ruas no final da década de 1980 e a repressão também aconteceu em cidades da Califórnia, nos Estados Unidos, berço do skate.
“Por duas vezes eu fui preso, me colocaram numa cela”, conta o skatista Thronn, em relato colhido por Leonardo Brandão.
“Uma vez fui preso porque estava dando fiftys [deslizando com os eixos do skate] nos arcos de ferro da igreja de Moema. Uma vez no Parque do Ibirapuera, fui ao banheiro da lanchonete e, quando voltei, todos meus amigos tinham sido abordados e seus skates, confiscados”, lembrou o skatista.
“Aí os guardas vieram querer pegar o meu, e o pessoal, já meio derrotado e cabisbaixo, pediu pra eu entregar também, mas comecei a lutar, girando como numa roda de punk e saiu voando caneta, blocos de anotações, distintivos, moedas, tudo que os guardas tinham”.
Da prefeita que amava o skate às medalhas em Tóquio

No artigo acadêmico “De Jânio Quadros a Luiza Erundina: Uma história da proibição e do incentivo ao skate na cidade de São Paulo“, Leonardo Brandão lembra um caso saboroso, passado no fim do mandato de Jânio Quadros, quando Luiza Erundina (PT) já havia sido eleita a nova prefeita.
Alexandre Ribeiro, um skatista conhecido da época, voltava com amigos de uma apresentação de colegas americanos famosos, em evento realizado no Ibirapuera.
O grupo cruzava a marquise do parque em seus skates, quando foi surpreendido por um guarda. A turma brigava para ter de volta os skates apreendidos pelo homem da lei, quando chegou um “opalão preto” e de dentro saiu o prefeito inimigo do skate.
“Que baderna é essa aqui? Vocês não sabem que eu proibi a prática de skate nas ruas da cidade de São Paulo, inclusive aqui no parque?”, indagou o mandatário, que acrescentou:
“Escutem, aguardem o mandato da nova prefeita Erundina que irá libertar a prática do skate; inclusive liberará a volta dos camelôs às calçadas!'”.
A posse de Luiza Erundina foi em 1º de janeiro de 1989. No dia 08 daquele mês, numa matéria intitulada “Erundina começa a mostrar seu estilo”, o jornal O Estado de S. Paulo registrava: “skates ao Parque do Ibirapuera e a volta dos vendedores ambulantes à praça da Sé foram as mudanças mais visíveis na cidade de São Paulo, durante a primeira semana de mandato da prefeita Luiza Erundina”.
Em entrevista à Folha da Tarde, publicada na edição de 16 de julho de 1990 sob o título de “Erundina: a prefeita que ama o skate”, disse a então petista:
“Eu me sinto comprometida com os skatistas da cidade […] Meu compromisso com eles é tão sério que ainda pretendo fazer parte de algum clube que reúna skatistas, embora já não tenha mais idade para fazer o mesmo que essa rapaziada maravilhosa de nossa cidade faz sobre um skate. Na nossa gestão vamos criar condições para que os adeptos deste esporte possam praticá-lo adequadamente.”
A partir da gestão de Erundina, o skate passou a ser menos marginalizado.
O processo de reconhecimento social chegou a seu ápice com a estreia como esporte olímpico nos jogos de Tóquio em 2021, onde a maranhense Rayssa Leal fez história, garantindo uma medalha de prata no street feminino e se tornando, aos 13 anos, a mais jovem desportista individual a ganhar uma medalha em Olimpíadas até então.

“É muito louco. Saber que no início só minha mãe e meu pai me apoiavam e saíam com a cara e coragem para eu poder estar aqui”, disse a vice-campeã olímpica em Tóquio.
“Skate é, sim, para todo mundo, assim como qualquer esporte, como futebol e handebol. Muita gente fala que handebol é só para meninas. É para todos e skate não é só para meninos”, acrescentou.
“O skate sempre foi visto como uma coisa de homem, e aí ela vai lá: uma menina, de Imperatriz do Maranhão no Nordeste, que começou a andar de skate vestida de fadinha e se torna uma campeã olímpica em Tóquio”, destaca Brandão, ele mesmo skatista desde os 12 anos.
“A gente não tem ideia ainda do que isso vai causar no sentido de liberar outras meninas para fazerem o que elas quiserem fazer da vida. O fato de ela falar ‘o skate é para todo mundo’ carrega um teor político muito grande. Isso é mais uma etapa da conquista do espaço público pelas mulheres”, considera o historiador.
“Durante muito tempo, as mulheres foram destinadas somente ao espaço privado. Mulher era para ficar dentro de casa e o homem no espaço público. Isso demonstra que as mulheres podem cada vez mais ir para o espaço público e fazer o que elas quiserem. Esse gesto político da Rayssa é mais importante até do que a medalha que ela ganhou.”




