Autora é ex-trabalhadora uma doméstica
Segundo estudos sobre a história do trabalho doméstico no Brasil, o quarto de empregada surge como uma adaptação urbana da lógica da senzala e da Casa Grande, concentrando em um único espaço a proximidade e o controle sobre a trabalhadora. Esse cômodo mantém a herança servil do século XIX ao limitar sua autonomia, estender sua disponibilidade ao trabalho e afastá-la do convívio familiar, muitas vezes em condições precárias e insalubres. Dados do DIEESE e do IBGE informam que o Brasil ainda tem cerca de 5,9 milhões de trabalhadores domésticos, dos quais 91,9% são mulheres (69% delas, negras).
Esta realidade inspirou Karol Maia a mover o foco de suas pesquisas da arquitetura dos quartos para as pessoas que os ocuparam durante boa parte de suas vidas — e de suas relações com esses espaços. Foi também uma oportunidade para a diretora revisitar suas origens como filha de uma ex-empregada doméstica, o que, segundo o crítico Luiz Zanin Oricchio, no Estadão, garante particularidade ao filme: “há um diferencial em relação a obras anteriores, muitas delas dirigidas por pessoas de classe média, pois aqui a narrativa é assumida por alguém diretamente atravessado por essa experiência”. Essa virada de chave permite uma conexão natural da cineasta com suas entrevistadas.
Além de registrar as histórias destas mulheres que viveram por anos nesses cubículos, AQUI NÃO ENTRA LUZ convoca uma discussão maior sobre este modelo incrustado em nossa sociedade que molda o destino de milhares de famílias. “Eu sou parte de uma geração que teve acesso ao Prouni (Programa Universidade para Todos), a primeira da família a se formar na universidade. O fato de ser eu dirigindo o filme, ser a minha história, já é um dado político”, declarou Karol Maia à Rádio Brasil de Fato. “Eu acredito que o Aqui Não Entra Luz é um filme sobre a história do Brasil porque, sem o trabalho doméstico, sem as trabalhadoras domésticas, sem as amas de leite, sem as babás, esse país sequer existiria como é hoje. O trabalho doméstico é uma espinha dorsal do Brasil. O trabalho doméstico está no nosso imaginário, mas também está no cotidiano”.
Sinopse – Entre memórias pessoais e pesquisa histórica, uma cineasta, filha de uma trabalhadora doméstica, percorre os quatro estados brasileiros que mais receberam mão de obra escravizada e revela como os espaços de moradia foram projetados para segregar corpos e sustentar hierarquias. No caminho, encontra mulheres que enfrentam esse legado e lutam para que suas filhas possam sonhar outros destinos. O filme constrói um retrato íntimo e político de como a arquitetura no Brasil ainda carrega os traços da escravidão.

Sobre a diretora – Karol Maia é cineasta e em sua direção constrói um olhar voltado para narrativas negras e periféricas. “Aqui não entra luz”, seu primeiro longa-metragem autoral, é uma investigação íntima sobre o trabalho doméstico no Brasil. Também dirigiu a série “Helipa – Um autorretrato” (Paramount), “Mães do Brasil 2” (TV Globo) e “Cartas marcadas” (Warner Bros./ Discovery), entre outros projetos.




