Obstruções podem provocar alterações repentinas
Quando se fala em acidente vascular cerebral (AVC), os sintomas mais conhecidos são fraqueza em um dos lados do corpo, dificuldade para falar e assimetria facial. Mas você sabia que uma alteração súbita da visão também pode ser um sinal de emergência vascular? Em 29 de outubro, Dia Mundial do AVC, o alerta se estende à saúde dos olhos: a perda repentina da visão, principalmente em apenas um olho e sem dor, pode estar relacionada à obstrução de um vaso sanguíneo da retina, estrutura responsável por captar as imagens. Em alguns casos, o comprometimento visual pode indicar uma condição grave, com risco de sequelas permanentes, que exige atendimento médico imediato.
“A retina precisa receber sangue e oxigênio continuamente para funcionar adequadamente. Quando ocorre uma obstrução em um dos vasos responsáveis por sua irrigação, as células podem sofrer danos rapidamente, provocando uma redução importante da visão”, explica a Dra. Michelle Gantois, médica oftalmologista do HOPE.
Entre as condições que merecem atenção está a oclusão da artéria central da retina, conhecida como um tipo de AVC ocular. A condição ocorre quando a artéria responsável por levar sangue à retina é bloqueada, impedindo que a estrutura receba oxigênio adequadamente. Essa obstrução pode ser causada por um coágulo ou por pequenos fragmentos que se deslocam pela circulação sanguínea. A manifestação mais característica é a perda súbita e indolor da visão em um dos olhos, que pode ser parcial ou intensa.
“Uma característica importante é que a pessoa pode não sentir absolutamente nenhuma dor. Ela pode estar realizando suas atividades normalmente e, de repente, perceber que deixou de enxergar bem ou perdeu a visão de um dos olhos. A ausência de dor não significa que o problema seja menos grave”, alerta a oftalmologista.
Outra condição é a oclusão venosa da retina, que ocorre quando há bloqueio da drenagem do sangue pelas veias retinianas. Nesse caso, o acúmulo de sangue e líquido pode provocar hemorragias e inchaço na mácula, região responsável pela visão central, causando embaçamento ou redução da capacidade visual. Os sintomas podem surgir de forma repentina ou evoluir ao longo de horas e dias, dependendo da extensão e da localização da obstrução. Apesar de também comprometer a circulação ocular, a oclusão venosa tem mecanismos e características diferentes da oclusão arterial.
“As duas condições precisam de avaliação oftalmológica rápida, mas não são iguais. Identificar qual vaso foi afetado e a extensão do comprometimento é fundamental para definir a conduta e investigar possíveis doenças associadas”, esclarece a Dra. Michelle.
Hipertensão arterial, diabetes, colesterol elevado, tabagismo e doenças cardiovasculares estão entre os fatores que aumentam o risco de alterações vasculares capazes de comprometer a retina. A idade também pode contribuir para uma maior predisposição. Em alguns casos, a obstrução está relacionada à formação de coágulos ou ao deslocamento de pequenos fragmentos provenientes de outras regiões da circulação, como as artérias carótidas ou o coração. Por isso, a investigação não deve se limitar aos olhos.
“Quando identificamos uma oclusão arterial da retina, precisamos investigar a saúde vascular do paciente e possíveis fontes de obstrução. Esse cuidado é importante não apenas para tentar preservar a visão, mas também para identificar condições que podem estar associadas a um AVC cerebral ou a outros eventos cardiovasculares”, afirma a médica.
Diante de uma perda visual súbita, mesmo que ocorra em apenas um olho e desapareça espontaneamente, a orientação é procurar imediatamente um serviço de emergência, preferencialmente com suporte para avaliação de AVC. Não se deve esperar o sintoma passar, tentar tratá-lo em casa ou aguardar uma consulta de rotina. A avaliação pode incluir exame oftalmológico e investigação neurológica e cardiovascular, conforme o quadro clínico.
“O tempo é um fator decisivo. Na suspeita de oclusão arterial da retina, cada minuto importa, porque a interrupção do fornecimento de oxigênio pode provocar danos irreversíveis. Mesmo que a pessoa não apresente fraqueza, dificuldade para falar ou assimetria no rosto, a perda súbita da visão precisa ser tratada como uma emergência”, reforça a especialista.
A prevenção envolve o acompanhamento regular da saúde, o controle da pressão arterial, da glicemia e do colesterol, a prática de atividade física, a alimentação equilibrada e a interrupção do tabagismo. Pessoas com doenças cardiovasculares ou histórico de problemas vasculares devem seguir as orientações médicas e manter os exames em dia.
“Cuidar da circulação também é cuidar da visão. Reconhecer os sinais, controlar os fatores de risco e buscar atendimento sem demora são atitudes fundamentais para reduzir complicações. Uma alteração visual repentina nunca deve ser considerada normal, principalmente quando surge sem uma causa conhecida”, finaliza a Dra. Michelle Gantois




