Cristianismo, liberalismo e nacionalismo são inimigos da revolução

-
- VICTOR MISSIATO
Em fevereiro de 1848, Karl Marx e Friedrich Engels anunciavam a emergência de um novo espectro político, que buscava se contrapor a todas as potências da Europa. Logo na primeira página do Manifesto Comunista, Marx e Engels definiram a trindade política a ser combatida pela revolução global comunista. Ao citarem “o papa e o czar, Metternich e Guizot, os radicais da França e os policiais da Alemanha”, os autores do Manifesto elegeram o cristianismo, o liberalismo e o nacionalismo como os três inimigos de seu projeto revolucionário.
De modo sucinto, a religião representava a ideologia desmobilizadora do espírito revolucionário, o liberalismo ficava responsável pela alienação produzida pelo trabalho e o nacionalismo impedia a formação de um movimento internacional dos trabalhadores. Havia, portanto, um claro projeto global, que buscava uma modernidade alternativa à nova sociedade burguesa em ascensão.
Embora os desfechos da Primavera dos Povos, em 1848, não tenham favorecido às pretensões de Marx e seu projeto de poder, a partir de seus trabalhos e mobilizações, a esquerda deixou de arregimentar pequenos agrupamentos utópicos e passou a se posicionar enquanto um movimento global.
Nascia, em 1864, a Primeira Internacional, cujo principal objetivo era reunir todos os proletários na luta por uma nova sociedade. Entre comunas e desilusões, o legado de Marx se espraiou pelo mundo todo, atingindo seu ápice em 1917, quando a Revolução Russa se transformou na Revolução Global do comunismo, conforme tão bem ilustrou o historiador italiano Silvio Pons, em sua obra A Revolução global: história do comunismo internacional (1917-1991).
Para termos ideia dessa dimensão revolucionária, complexa e heterogênea, o comunismo chegou ao poder em todas as regiões do globo terrestre, do Chile aos movimentos de libertação nacional na África, de Cuba à Coreia do Norte, da China à Nicarágua. Ademais, nos países ocidentais, a esquerda se fez presente em diversos projetos culturais e políticos. De Gramsci a Habermas, quase nenhum curso de ciências sociais deixou de formar acadêmicos com viés de esquerda, mesmo em regimes ditatoriais, como no caso do Brasil.
Apesar de as identidades revolucionárias terem se transformado desde o Manifesto até a queda do Muro de Berlim, em 1989, os comunismos representavam uma contraposição, já que havia uma luta, um projeto e uma utopia. O dilema da transformação se alternava entre reforma e revolução, mas o poder jamais havia deixado de ser um destino. Aliar-se a grupos cristãos, como a aproximação com a renovação carismática na América Latina, adaptar-se a valores do liberalismo político nas democracias ocidentais e formar esquerdas nacionais por meio de partidos políticos, foram alternativas adotadas pelas esquerdas no século XX para lidar com o esfacelamento do projeto revolucionário soviético. No caso da China, aderir ao liberalismo econômico foi a solução encontrada para não ter o mesmo fim que a URSS.
Contudo, no século XXI, o projeto de modernidade alternativa, tão defendida pelas esquerdas nos dois séculos anteriores, se desfez por completo. Surgiram algumas vãs esperanças, como o “socialismo do século XXI”, apregoado pelo historiador E. Hobsbawm, ao analisar a ascensão do chavismo na Venezuela, mas tudo se diluiu na mesma velocidade dos tempos líquidos nos quais vivemos. A última fagulha parecia vir com a nova constituição chilena, que surgiu de um amplo movimento de base após as diversas revoltas ocorridas em 2019, quando milhões de pessoas foram às ruas protestar contra o aumento da tarifa do metrô. A primeira Assembleia Constituinte procurou criar um estado plurinacional e um novo Estado de Bem-Estar social, tentando destruir o legado “neoliberal” da atual constituição, imposta por Pinochet, em 1980. Ao ir para votação popular, o rechaço do povo chileno ilustrou bem o desencanto com a dimensão identitária e progressista da Nova Carta. Agora, caberá à direita liderar um novo processo constituinte.
Sem um projeto de poder alternativo, a esquerda do século XXI assiste às transformações constantes do cristianismo, por meio de suas renovações, ao desenvolvimento do liberalismo na História e a ascensão de novos movimentos nacionalistas, do Brexit à guerra entre Rússia e Ucrânia. Para preservar uma identidade social, coube a esquerda se apropriar de pautas liberais no que diz respeito às liberdades individuais. Como forma de sobrevivência formal, a esquerda se divide hoje entre, por um lado, defender a implantação de uma nova âncora fiscal no Brasil, vibrar com a vitória de um presidente democrata nos EUA, aceitar a presença de Emmanuel Macron e Angela Merkel como sustentadores de um projeto europeu de sociedade e, por outro, defender a invasão russa na Ucrânia e silenciar-se sobre a exploração do trabalho na China. Sendo assim, afirmar-se enquanto militante de esquerda em “tempos neoliberais” tornou-se apenas uma mercadoria valiosa em alguns mercados editoriais, papéis em novelas e filmes ou cargos públicos em universidades. Todavia, sem um projeto de poder, a esquerda deixa de possuir um corpo político, tornando-se novamente um espectro, dessa vez não mais revolucionário e nem reformista.
Sobre os Colégios Presbiterianos Mackenzie – Os Colégios Presbiterianos Mackenzie são reconhecidos, hoje, pela qualidade no ensino e educação que oferecem aos seus alunos, enraizada na antiga Escola Americana, fundada em 1870, por George e Mary Chamberlain, em São Paulo. A instituição dispõe de unidades em São Paulo, Tamboré (em Barueri-SP), Brasília (DF) e Palmas (TO).
Com todos os segmentos da Educação Básica – Educação Infantil (Maternal, Jardim I e II), Ensino Fundamental e Ensino Médio, procura o desenvolvimento das habilidades integrais do aluno e a formação de valores e da consciência crítica, despertando o compromisso com a sociedade e formando um indivíduo capaz de servir ao próximo e à comunidade. No percurso da história, o Mackenzie se tornou reconhecido pela tradição, pioneirismo e inovação na educação, o que permitiu alcançar o posto de uma das renomadas instituições de ensino que mais contribuem para o desenvolvimento científico e acadêmico do País.


