CARLOS BRANDÃO*
Desde que comecei a percorrer o Maranhão inteiro – e já se vão quase quarenta anos – tento compreender o tamanho real do território que ocupamos. Uma imensidão dentro de uma região única no mundo: a Amazônia Legal.
E, hoje, a certeza é a de que seu tamanho real vai muito além de seus limites de fronteira. Aí, uma pergunta simples se impõe: quando o mundo olha para essa imensidão verde, será que consegue enxergar quem vive dentro dela?
Porque, para quem mora aqui, a Amazônia nunca foi apenas paisagem. É casa. Para cerca de 28 milhões de brasileiros é o lugar onde o dia começa cedo, onde acordam para estudar, trabalhar, criar seus filhos, empreender, enfrentar as dificuldades do cotidiano.
No fim das contas, são pessoas que querem o mesmo que qualquer outra de qualquer outro lugar: tranquilidade, oportunidade e dignidade.
A diferença é que vivem em uma região que o mundo inteiro observa – embora nem sempre compreenda de verdade. Sou um homem de estrada, de longas caminhadas e que sempre atuou, politicamente falando, ouvindo, conversando com as pessoas, vivendo cada canto de meu estado.
E, ao longo dessas conversas pelo interior do Maranhão, entendi que não existe futuro para a Amazônia se a discussão se limitar apenas à preservação ambiental. Preservar é essencial – isso não se discute. Mas não basta.
Não faz sentido falar em proteger a floresta sem considerar, ao mesmo tempo, em criar oportunidades para quem vive nela. Não adianta defender a natureza se a população continua sem perspectivas.
Nesta segunda (16) o Maranhão assume a presidência do Consórcio Amazônia Legal, que reúne os nove estados da região, com a missão de liderar a ampliação do protagonismo da Amazônia.
E assumir essa função exige, antes de tudo, disposição para ouvir os outros governadores, ouvir especialistas e, principalmente, quem vive na região. Significa compartilhar experiências, reconhecer acertos e aprender com as soluções que cada estado vem construindo.
Infelizmente, quase 40% da nossa gente, na Amazônia Legal, ainda vive com o básico faltando. Metade dos trabalhadores está na informalidade.
É gente que acorda todo dia sem saber se o que vier no final do mês vai dar para pagar o leite, o remédio, o gás. Isso não é estatística. É vida real. É o retrato de uma floresta gigante que, para muita gente que mora nela, ainda não virou oportunidade de verdade.
Mas pode virar.
Por isso, ao assumir a liderança do Consórcio, trazemos, como propostas, três caminhos para começar essa virada. O primeiro é discutir e investir na regularização fundiária.
É quando uma família deixa de ser invisível. É quando a mulher do campo, que sempre trabalhou a terra dos outros, pode finalmente dizer “isso aqui é meu”. Aí o conflito diminui, a produção se organiza.
No Maranhão, a gente começou esse movimento com o programa Paz no Campo, que já entregou mais de 35 mil títulos de terra nos últimos três anos. Também com o programa Terras para Elas, feito de mãos dadas com organismos internacionais. O que estamos conseguindo aqui podemos ampliar para toda a Amazônia Legal.
A segunda frente envolve a bioeconomia. A floresta em pé precisa gerar renda para quem vive nela. Isso significa transformar biodiversidade em conhecimento, inovação, novos produtos e novos mercados.
Com planejamento e cooperação entre os estados, a bioeconomia pode se tornar uma das bases mais sólidas do desenvolvimento amazônico nas próximas décadas.
O terceiro caminho é o turismo sustentável. Porque a Amazônia não tem só floresta. Tem rios gigantescos, grande diversidade de fauna e flora, uma culinária única, uma cultura popular encantadora e um povo especialmente acolhedor.
Integrar esse potencial em rotas turísticas estruturadas pode gerar empregos, renda e novas oportunidades para milhares de famílias da região.
No fundo, todas essas iniciativas apontam para a mesma direção. A Amazônia não quer isolamento. Quer parceria. Quer diálogo. Quer ser vista com respeito e compreendida em toda a sua complexidade.
Preservar a floresta é indispensável. Mas preservar também significa acreditar que as pessoas que vivem nela tenham condições de prosperar.
A Amazônia continuará sendo uma das maiores riquezas ambientais do planeta. E, como já disse antes, isso ninguém discute. Mas ela também pode se tornar um exemplo para o mundo de que é possível proteger a natureza enquanto se constrói desenvolvimento, inclusão e prosperidade.
Esse é o desafio que está diante de nós.
E é com essa responsabilidade que abraçamos a missão de presidir o Consórcio Amazônia Legal. Não apenas para cuidar da Amazônia, mas para garantir que o futuro dessa região também represente um futuro digno para o seu povo.
*Governador do Maranhão


