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    Home»Brasil»Brasil poderia ter sido o primeiro do mundo a vacinar contra covid-19, garante Dimas Covas, diretor-presidente do Instituto Butantan

    Brasil poderia ter sido o primeiro do mundo a vacinar contra covid-19, garante Dimas Covas, diretor-presidente do Instituto Butantan

    Aquiles Emir27 de maio de 20210
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    Diretor do Butantan prestou depoimento à CPI da Pandemia

    O diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, afirmou nesta quinta-feira (27) em depoimento à CPI da Pandemia que fez a primeira oferta de vacinas contra a covid-19 ao Ministério da Saúde em 30 julho de 2020, mas ficou sem resposta. Eram 60 milhões de doses, que seriam entregues no último trimestre daquele ano.

    Segundo ele, o Brasil poderia ter sido o primeiro no mundo a iniciar a vacinação “se todos os atores” tivessem colaborado. Dimas Covas disse que manifestações do presidente Jair Bolsonaro contra a vacina deixaram as negociações “em suspenso” e atrasaram o começo da vacinação no país.

    Em dezembro, o laboratório tinha quase 10 milhões de doses da CoronaVac ( 5,5 milhões de doses prontas e 4 milhões em processamento). A vacinação no mundo começou em dezembro. No Brasil, apenas em 17 de janeiro.

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    “O mundo começou a vacinar no dia 08 de dezembro. O Brasil poderia ter sido o primeiro país do mundo a iniciar a vacinação, se não fossem esses percalços, tanto contratuais como de regulamentação”, disse Dimas Covas, que entregou à CPI ofícios para comprovar seu depoimento.

    As “idas e vindas” nas negociações com o governo federal e a demora na assinatura do contrato atrasaram o cronograma e a oferta de vacinas. Segundo Covas, o contrato com o Ministério da Saúde avançou e ficou perto de um desfecho positivo em outubro, com a assinatura de um protocolo de intenções no dia 19 para fornecimento de 46 milhões de doses e a sinalização da edição de uma medida provisória para permitir a compra.

    No dia seguinte, o então ministro da Saúde Eduardo Pazuello chegou a anunciar a compra dos imunizantes, mas, segundo Covas, o contrato ficou em “suspenso” por quase três meses após declarações de Jair Bolsonaro contra a aquisição dos imunizantes.

    “Infelizmente essas conversações não prosseguiram, porque houve, sim, aí, uma manifestação do presidente da República, naquele momento, dizendo que a vacina não seria de fato incorporada, não haveria o progresso desse processo. […] Houve, no dia 19, um dia antes da reunião com o ministro, um documento do ministério que era um compromisso de incorporação, mas após, esse compromisso ficou em suspenso e, de fato, só foi concretizado em 7 de janeiro”, relatou.

    Naquele momento, afirmou Dimas Covas, o Instituto Butantan tinha a capacidade de produzir 100 milhões de doses até maio. O diretor classificou o recuo do Ministério da Saúde como “frustrante” e relatou que havia incertezas no financiamento da produção da vacina, mas recebeu o apoio do governador de São Paulo, João Doria, e de outros governadores e prefeitos.

    “Até esse momento, o Butantan custeava todas as despesas do estudo clínico, da vinda da matéria-prima, da transferência de tecnologia, com essa pressão muito grande dos estados e municípios. O governador do estado de São Paulo veio em suplência a isso, deu todo o apoio, outros estados também. Na realidade, 17 estados fizeram termos de intenção de aquisição da vacina e muitos municípios do Brasil”, apontou.

    Segundo Randolfe Rodrigues (Rede-AP), as informações de Dimas Covas indicam que, sem contar outros imunizantes, o país já teria 50 milhões de pessoas imunizadas apenas com a CoronaVac, se o governo federal não tivesse sido omisso. “O Brasil poderia ter imunizado 50 milhões de brasileiros com duas doses até maio”, apontou Randolfe, vice-presidente da CPI.

    Negociações com o ministério – Ao detalhar os contatos com o Ministério da Saúde e com a farmacêutica chinesa Sinovac, Dimas Covas disse que em abril de 2020 já havia contatado alguns laboratórios para iniciar parcerias, mas optou pela CoronaVac, que era a vacina até então mais desenvolvida.

    Em junho de 2020, apontou o diretor, começaram os estudos clínicos no país. Na sequência, Butantan e Ministério da Saúde iniciaram os contatos técnicos e as negociações.

    “Eu mandei um ofício, no dia 30 de julho de 2020, em que ressaltamos a importância de tomar essa iniciativa num momento em que ainda não se tinha vacina. Ofertamos, naquele momento, 60 milhões de doses, que poderiam ser entregues no último trimestre de 2020. Um pouquinho depois, como não houve aí uma resposta efetiva, nós reforçamos o ofício”, afirmou.

    Críticas à China – Questionado pelo relator Renan Calheiros (MDB-AL) e outros senadores sobre as consequências das declarações contra a China por parte de membros do governo federal e de campanhas de difamação da vacina CoronaVac nas redes sociais, Covas afirmou que a postura atrapalha a liberação de insumos de imunizantes para o Brasil e impediu a vacinação de milhões de pessoas num prazo anterior ao que acabou ocorrendo:

    “Cada declaração que ocorre aqui no Brasil repercute na imprensa da China. As pessoas da China têm grande orgulho da contribuição que a China dá ao mundo neste momento. Então, obviamente isso se reflete nas dificuldades burocráticas, que eram normalmente resolvidas em 15 dias, e hoje demoram mais de mês para serem resolvidas”.

    Segundo Covas, o problema ameaça a entrega de todas as 54 milhões de doses da vacina até 30 de setembro, como inicialmente previsto. Nesta quinta-feira (27), o Butantan retomou a produção da CoronaVac. Paralisado desde o dia 14 de maio por falta de matéria-prima, o envase foi reiniciado após o recebimento de 3 mil litros de Insumo Farmacêutico Ativo (IFA)

    Doria x Bolsonaro – Marcos Rogério (DEM-RO) apresentou um vídeo do documentário A Corrida das Vacinas que mostra um áudio vazado de uma conversa entre Doria e Dimas Covas. O senador alegou que a peça é uma prova de que o governador agiu politicamente e foi “grosseiro” com relação ao interlocutor chinês.

    O presidente da CPI, Omar Aziz (PSD-AM), afirmou que a fala foi uma demonstração de um agente político que estava em busca de vacinas.

    Para os senadores Randolfe Rodrigues, Humberto Costa (PT-PE) e Simone Tebet (MDB-MS), o depoimento de Dimas Covas reforça que o governo federal foi omisso na compra de vacinas. Eles também defenderam o governador João Doria.

    Segundo líder do governo no Senado, Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE), o depoimento de Dimas Covas mostra, na verdade, que o governo federal estava negociando com o Butantan e sempre foi parceiro da instituição. “Não houve nenhum embaraço da parte do governo federal”, afirmou.

     Cronologia da CoronaVac no Brasil, segundo o Butantan

    Abril de 2020 Parceria de codesenvolvimento com a Sinovac
    Julho de 2020 Início do estudo clínico
    30 de julho de 2020 Primeira oferta de vacinas ao Ministério da Saúde (ofício)
    18 de agosto de 2020 Novo ofício encaminhado com oferta de vacinas e pedido de apoio financeiro para estudo clínico
    7 de outubro de 2020 Oferta de 100 milhões de doses: 45 milhões até dezembro de 2020, 15 milhões de doses no final de fevereiro e 40 milhões adicionais até maio deste ano
    19 de outubro Após tratativas técnicas, Ministério da Saúde manifesta intenção de compra
    20 de outubro Dimas Covas é convidado pelo então ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, para participar de reunião com governadores para informar que havia autorização para o ministério comprar a Coronavac. Seriam 46 milhões de doses
    21 de outubro O presidente Jair  Bolsonaro se manifesta dizendo que não comprará a vacina
    Final de dezembro de 2020 Butantan tem 5,5 milhões de doses prontas, mais 4 milhões em processamento, sem contato com o ministério
    6 de janeiro Ministério procura novamente o Butantan. Instituto faz nova oferta de 100 milhões de doses, mas já com um cronograma diferente: até o fim de agosto ou setembro de 2021
    7 de janeiro Ministério da Saúde encaminha primeira versão do contrato, com 45 milhões de doses, revisto novamente para 100 milhões. Contrato desaparece do sistema e novo contrato é assinado: 46 milhões, com opção de compra de mais 54 milhões
    17 de janeiro Campanha de vacinação é iniciada em São Paulo, após autorização emergencial da Anvisa
    18 de janeiro Vacinas começam a ser distribuídas para todo o Brasil
    12 de fevereiro Após contato do Instituto Butantan, o ministério faz o segundo contrato, para compra de 54 milhões de doses adicionais, e envia solicitação de novo adicional de 30 milhões
    Situação hoje O primeiro contrato de 46 milhões de doses foi concluído no dia 12 de maio, com 12 dias  de atraso. O fornecimento do segundo contrato, de 54 milhões de doses, foi iniciado

     (Agência Senado)

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