Construção está a 35 quilômetros da sede do município
AQUILES EMIR
Não devem estar passando tantas dificuldades quanto se imagina as quebradeiras de coco babaçu do Maranhão. É o que se deduz lendo reportagem “Como a arquitetura está empoderando as mulheres do povoado de Sumaúma, no Maranhão”, assinada por Laura Raffs e publicada pela Casa Vogue, uma das mais prestigiadas revistas voltadas para o sofisticado segmento de arquitetura e decoração.
De acordo com a reportagem, no povoado de Sumaúma, em Vitória do Mearim, que fica a 35 quilômetros da sede do município, no interior do Maranhão, as quebradeiras de coco ganharam um Centro de Referência Quebradeiras de Babaçu, um espaço onde podem realizar trabalhoo de apoio ao seu ofício do dia a dia.
O projeto, é assinado pelo Estúdio Flume, famosa empresa de arquitetura de São Paulo, que foi distinguida com o Prêmio Arquitetura Tomie Ohtake AkzoNobel de 2023.
“A construção do centro comunitário faz parte de uma iniciativa maior, chamada Rede Mulheres do Maranhão, que é comandada pela Mandū Inovação Social, uma consultoria que atua no âmbito de negócios de impacto e fortalecimento de economias locais. A rede é composta por 15 negócios sociais localizados em comunidades do entorno da estrada de Ferro Carajás, que liga o sudeste do Pará a São Luís, no Maranhão”, diz a reportagem.
À revista Vogue, Felipe Bannitz, diretor-presidente da Mandū, disse que “tudo nasce com a estrada de ferro que corta todo o estado do Maranhão. Em meados de 2015, a Fundação Vale instalou ar-condicionado nos trens e as janelas foram lacradas. Cerca de 400 mulheres que criaram suas famílias vendendo comida nas paradas iriam perder este mercado, por isso a empresa nos contratou para resolvermos este desafio. Assim nasceu a Rede Mulheres do Maranhão”, conta
Por essa iniciativa da Vale deu-se o fortalecimento da cadeia do babaçu, e começou um movimento de fortalecimento das quebradeiras. “Fomos até suas comunidades, sendo uma delas Sumaúma, para melhorar as condições de quebra do coco e diversificar suas atividades produtivas”, acrescentou Felipe.

Ofício das quebradeiras – A extração da amêndoa da babaçu há décadas é feito de maneira artesanal, em que as mulheres utilizam machado e um pedaço de pau bem resistente para quebrar o coco, que é aproveitado de diferentes maneiras: da parte mais externa, chamada epicarpo, são feitos adubo orgânico, xaxim, vasos e outros produtos; já o mesocarpo é usado para a fabricação de farinha de babaçu, enquanto de suas amêndoas é extraído o óleo de babaçu, utilizado em alimentos e na indústria cosmética.
Segundo estudo do Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu, há mais de 300 mil mulheres que exercem essa atividade extrativista na Mata dos Cocais, que ocupa os estados do Maranhão, Piauí, Ceará, Pará e Tocantins. Estima-se em 28, as comunidades tradicionais brasileiras.
Segundo a reportagem de Laura Raffs, por intermediação da Mandū foi feito o contato das quebradeiras e as indústria que beneficiam o babaçu para produção de óleo para que pudessem vender diretamente a eles, sem intermediação de comerciantes, e houve auxílio para que as quebradeiras acessassem a política de preço mínimo do Governo Federal, operacionalizada pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).
“Uma segunda fase do projeto foi quando começamos a fazer visitas a essas mulheres para saber de qual infraestrutura elas precisavam para melhorar a quebra do coco e quais outras atividades produtivas elas possuíam interesse”, comenta Felipe Bannitz.
Para desenvolver o projeto da sede do centro comunitário, o Estúdio Flume atuou na área de consultoria e em intervenções pontuais, até chegar na elaboração e construção do projeto, sendo que as mulheres participaram de todo o seu processo criativo.
“Entendemos que o envolvimento das quebradeiras era crucial: era muito importante que fizéssemos esse trabalho de forma co-participativa, pois procurávamos o equilíbrio entre proporcionar melhores condições de trabalho e preservar a tradição”, explica à Casa Vogue o arquiteto e um dos fundadores do Estúdio Flume, Christian Teshirogi. “Fizemos encontros com essas mulheres e, através deles, entendemos os materiais e técnicas de construção locais que poderíamos utilizar”, complementa Noelia Monteiro, arquiteta e fundadora do Estúdio Flume.

Centro comunitário – A opção do estúdio foi trabalhar com o tijolo solo-cimento, composto por uma mistura de solo, cimento e água. “É uma certa releitura das casas de taipa, muito comuns na região”, afirma Noelia Monteiro. A escolha do material também foi feita pensando na durabilidade da construção em relação ao clima da região, que passa por longos períodos de seca e chuva.
“O nosso planejamento levou essas condições em consideração. Por isso, pensamos em qual material poderíamos utilizar de forma econômica para que a mão de obra não precisasse sair da comunidade e o projeto não parasse”, diz Christian Teshirogi, sócia do studio.
O centro comunitário foi pensado como um grande corredor com diversos módulos. Logo na entrada, estão localizadas a área de exposição dos produtos da loja e uma área administrativa. Em seguida, há um grande pátio com mesas, onde é feito a secagem do coco e de seu mesocarpo. “Funciona como uma estufa, sendo um local ensolarado e arejado onde esse processo pode ser feito sem ser prejudicado pelas chuvas”, explica a arquiteta.
As mulheres contam ainda com espaço onde realizam a parte principal de seu ofício. Depois, há o local de extração do mesocarpo, sendo a estrutura finalizada com a cozinha, onde são feitos os biscoitos, bolos e outros produtos com a farinha de babaçu.
(Com imagens de Maíra Acayaba divulgadas pela Vale)




