Gestação sem as limitações do relógio biológico
Não é só na ficção! Assim como a personagem Andy Sachs, protagonizada por Anne Hathaway no recém-estreado filme “O Diabo Veste Prada 2”, as mulheres da vida real congelam óvulos, em um movimento crescente que reflete as transformações sociais e a solução oferecida pela medicina reprodutiva para a realização do sonho da maternidade no melhor momento da própria história, sem as amarras impostas pelo tempo biológico.
Dados do Instituto Brsileiro de Geografia e Estatística (IBGE) refletem a tendência de adiamento da maternidade no Brasil: o último censo revelou que a idade média ao ter filhos passou de 26 anos, em 2000, para 28 anos, em 2022; e estatísticas do Registro Civil apontam que, nas últimas duas décadas, também cresceu o número de nascimentos gerados por mães com 35 a 39 anos de idade, o que coincide com o momento em que o declínio da fertilidade começa a se acentuar.
O relógio biológico feminino torna a gestação mais difícil a partir dos 35 anos. Nessa idade, a probabilidade de a mulher engravidar de maneira natural no decorrer de um ano de tentativas é de 55%, contra 86% aos 25 anos. Inclinadas a terem filhos mais tarde, as brasileiras recorrem cada vez mais ao congelamento de óvulos enquanto estão no auge da idade reprodutiva, para garantir maiores chances de engravidar.
De acordo com o Sistema Nacional de Produção de Embriões (SisEmbrio) da Anvisa, o número de ciclos de criopreservação de óvulos quase dobrou entre 2020 e 2023 no Brasil, especialmente entre mulheres com menos de 35 anos. Em 2023, foram 4.340 ciclos, 97,9% a mais do que os 2.193 realizados em 2020, primeiro ano sobre o qual há informações disponíveis.
Confira informações essenciais para quem pensa em congelar óvulos:
1- É necessária uma avaliação da reserva ovariana
As mulheres nascem com um determinado número de folículos – pequenas estruturas localizadas nos ovários que podem dar origem a óvulos maduros, ou seja, prontos para a fecundação. Eles compõem a reserva ovariana — um estoque que se reduz continuamente ao longo da vida reprodutiva e não é reposto. “Com isso em vista, é fundamental que o ginecologista oriente suas pacientes sobre planejamento reprodutivo, que algumas vezes passará por antecipar os planos de engravidar e, em outras, pelo congelamento de óvulos”, explica Dr. Oscar Duarte, diretor médico do FertGroup.
2 – Quanto mais cedo o congelamento for realizado, melhor
O momento no qual uma mulher congela seus óvulos importa muito para as chances de ter um bebê no futuro. O recomendável é que o procedimento seja feito o mais cedo possível para aumentar as possibilidades de sucesso. “Por volta dos 35 anos, a perda dos folículos acelera, e os óvulos remanescentes tendem a apresentar menor qualidade, o que torna mais desafiadora a gestação, devido ao aumento da incidência de perdas gestacionais e de síndromes genéticas”, afirma Duarte.
3 – O estilo de vida influi na qualidade dos óvulos
Hábitos saudáveis podem ajudar a reduzir os danos aos óvulos causados pelo tempo. Evitar o consumo de álcool e o tabagismo ajuda a diminuir o estresse oxidativo que pode danificar o DNA do óvulo. Dormir bem garante níveis adequados de melatonina, hormônio que desempenha papel antioxidante. Uma dieta rica em gorduras boas, grãos e vegetais auxilia a diminuir a inflamação sistêmica, o que pode minimizar a perda de eficiência reprodutiva do óvulo.
O passo a passo do congelamento – Normalmente, apenas um óvulo é amadurecido e liberado por mês. Para o congelamento, os ovários são estimulados com hormônios por 10 a 12 dias a fim de que vários óvulos amadureçam ao mesmo tempo. “Neste período, monitoramos o crescimento dos folículos. Quando estiverem no tamanho ideal, é realizada a sua aspiração, em um procedimento cirúrgico minimamente invasivo, com sedação, usando uma agulha bem fina guiada por ultrassom transvaginal”, diz Duarte. “Os óvulos são levados ao laboratório e analisados. Os melhores são congelados por vitrificação, técnica que evita a formação de cristais de gelo que poderiam danificar a célula e que revolucionou o nosso meio nos últimos anos, permitindo a criopreservação de óvulos com a alta eficiência que temos hoje”, completa o diretor médico do FertGroup.
Nem todo óvulo resultará em um embrião viável quando for descongelado e fertilizado. Por isso, o médico pode sugerir mais de um ciclo de coleta para atingir um número com margem de segurança que ofereça maior probabilidade de gravidez no futuro. E esse número será menor quanto mais jovem for a mulher ao congelar. Por isso, a importância de se discutir esse assunto nos consultórios ginecológicos mais cedo.




