Se não tivesse aumentado a Selic, inflação em 2022 seria de 10%
A redução da taxa básica de juros (Selic) e, consequentemente, a diminuição do seu impacto sobre os mais pobres foram alguns dos questionamentos dos senadores da Comissão de Assuntos Econômicos (CAE), que nesta terça-feira (25) ouviram explicações do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto. Desde agosto de 2022, a taxa tem se mantido em 13,75%.
“Nunca na história desse país, nem na história do mundo, foi feito um movimento de aumento de juros tão grande no período eleitoral”, como em 2022, devido à previsão de crescimento da inflação, disse Campos Neto, que negou viés político nas decisões do BC.
Mesmo no período eleitoral, entendeu que a inflação ia subir, e antes de grande parte dos outros países, fez uma subida muito grande no ano eleitoral. Para ele, se não tivesse aumentado a Selic, a inflação em 2022 seria de 10%, e não de 5,8% e, para controlar a inflação precisaríamos estar com juros de 18,75%.
Autonomia – O presidente do Banco Central, que também integra o Conselho Monetário Nacional (CNM), defendeu a autonomia da entidade monetária, tratou de questões referentes ao regime de metas; processo de autonomia; inflação no mundo e no Brasil; atividade econômica; política fiscal; taxas de juros, mercado de capitais; e “agenda inclusiva”.
Campos Neto reconheceu que o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, tem direito de se manifestar sobre as taxas de juros, mas salientou que Banco Central não é culpado pelas mazelas que o país enfrenta. Ele afirmou ainda que as reformas (em especial a fiscal, a tributária e, como defendeu, também a administrativa); o equilíbrio fiscal; e as “contas públicas em dia” ajudam a diminuir os juros e que não “há nenhuma mágica, nenhuma bala de prata”.
Para o presidente do BC, o combate à inflação é o melhor instrumento social — “porque a inflação é um elemento muito corrosivo para os rendimentos dos mais carentes” — e não há definição de uma data para a queda dos juros, que acontecerá a partir de uma decisão técnica.
Causas da taxa de juros – Segundo Campos Neto, entre as causas para os juros altos estão a “baixíssima taxa de recuperação de crédito pelos bancos” (alta inadimplência); “baixa taxa de poupança”; “dívida bruta acima da média”; “percepção de risco”; e “alta proporção de crédito direcionado” a grupos específicos (em vez de um crédito geral, a partir do mercado de capitais).
Ele explicou que, para definir a taxa de juros, o BC considera a inflação, a capacidade de crescimento do país e as expectativas inflacionárias.
“A gente olha a inflação corrente: ou seja, como está a inflação hoje em dia, quais são as características da inflação corrente, ou seja, a gente olha a inflação, o que tem acontecido na inflação, qual é o aspecto qualitativo da inflação, qual é o tipo de inflação que a gente está vendo, o que dá para extrair da inflação corrente em termos de expectativa futura. A gente olha o hiato do produto, que é basicamente a capacidade de o país crescer sem gerar inflação. Então, eu tenho espaço para crescer sem gerar inflação? Eu não tenho espaço? Como é que funciona isso? E a gente olha as expectativas de inflação. Então, na parte de expectativas de inflação, o que a gente faz é tentar ver qual é a expectativa de inflação à frente, e a expectativa de inflação é muito importante no sistema de metas, porque as pessoas reajustam o preço baseadas nas expectativas. Então, a gente tem que ter certeza de que as expectativas de inflação estão dentro da meta, estão ancoradas.
Segundo ele, há mais de 14 semanas há piora nas expectativas de inflação e ainda “não se viu uma melhora nessa expectativa desde novembro”.
Fluxo cambial – Campos Neto também tratou da revisão das estatísticas de câmbio, a partir do requerimento do senador Alessandro Vieira (PSDB-SE), que questionou o erro ocorrido na série de câmbio contratado nas estatísticas do setor externo do Banco Central, no período de outubro de 2021 a dezembro de 2022, referente ao total de US$ 14,5 bilhões. O erro na compilação dos dados do fluxo cambial (ou seja, o volume de dólares que entram e saem do país) foi constatado em janeiro de 2023, já durante o novo governo.
(Agência Senado)




