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    Home»Mundo»Brasil não entende importância estratégia da África e subaproveita potencial, diz diplomata
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    Brasil não entende importância estratégia da África e subaproveita potencial, diz diplomata

    Aquiles Emir28 de novembro de 202506 Mins Read
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    Filhos de famílias diferentes e “pai ausente”

    Irmãos por parte de pai: é assim que o diplomata brasileiro em Kigali Rômulo Neves define o Brasil e o continente africano. Esse grau de proximidade, no entanto, reflete o de filhos de famílias diferentes, frutos do mesmo “pai ausente”.

    “Não são primos, porque estão muito próximos para serem primos, mas também não moram na mesma casa, porque têm um caldo cultural diferente em partes importantes das suas vivências”, descreve o diplomata, em entrevista ao Mundioka, podcast da Sputnik Brasil, para explicar a metáfora utilizada.
    O sentimento de familiaridade, além das semelhanças geográficas, se daria, segundo Neves, pelas relações de exploração que Brasil e África teriam com esse “pai simbólico”.
    A África deveria ser prioridade para o Brasil?

    Do ponto de vista estratégico, Neves ressalta que não só o Brasil, mas todos os países deveriam olhar com atenção para a África. “É o continente que mais está crescendo economicamente, é o único continente cuja população vai estar crescendo até 2100, a classe média está aumentando”, comenta.

    Quem já entendeu isso é a China, principal parceiro comercial de 53 dos 54 países africanos. Isso, conforme conta o diplomata, sem levar em conta investimentos como no caso de infraestruturas.
    Já o Brasil deveria aproveitar a boa imagem que tem no continente e casar isso com as boas oportunidades oferecidas.
    “Os produtos brasileiros casariam muito bem com a África, não apenas os industrializados, como o desenvolvimento agrícola que a gente implementou no país nos últimos 40, 50 anos. […] A indústria brasileira, de média complexidade, não tem muito o que competir na Europa, ainda mais que a Europa é uma região muito protecionista”, explica.
    Olhar para a África não é estritamente uma novidade. Nos primeiros governos Lula, sob a chancela do então ministro das Relações Exteriores Celso Amorim, o Brasil ampliou as relações econômicas e diplomáticas com o continente. Mas Lula foi um ponto fora da curva, de acordo com Neves.
    Os presidentes do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, e da Nigéria, Bola Tinubu, em Brasília, Brasil, em 25 de agosto de 2025 - Sputnik Brasil, 1920, 19.09.2025São “350 anos de política escravagista mais 150 anos de política de branqueamento”. Isso impacta na formação das pessoas e propõe um inconsciente viciado a olhar para a África como um destino ruim para os negócios, o que contribui para não ampliar as relações econômicas.
    “Em todos os momentos que a gente olha para a África, no fundo da cabeça, no fundo do cérebro, atavicamente, está a imagem de que a África não é um bom lugar”.
    Essa ideia pode ser exemplificada do ponto de vista institucional pela presença política, por exemplo. Segundo Neves, 40% das embaixadas brasileiras na África só têm o embaixador. “Não tem outro diplomata presente. Isso dificulta muito que você faça uma política eficiente”.

    Do ponto de vista do setor privado, o diplomata destaca que o empresário brasileiro nem coloca a África em uma conta de taxa de retorno do seu investimento. Se colocasse, fatalmente investiria lá, diz ele. Entretanto, “o racismo estrutural distancia o Brasil da África” e o continente nem entra na conta.

    Esse olhar, ainda que inconsciente, impede que o Brasil tenha total entendimento da importância estratégica da África.

    “A África tem 1 bilhão e 500 milhões de habitantes, dos quais 300 milhões são classe média, que têm um padrão de consumo que poderia ser atendido pelas empresas brasileiras“, pontua, salientando que a tendência é que a comunidade africana continue crescendo, aumentando o potencial de consumo.
    Outro fator destacado pelo diplomata está no quesito de pretensão a veia exportadora das empresas que querem investir nos países africanos.
    “Tem área agriculturável, então poderia receber investimento brasileiro em agricultura. Tem identidade cultural, o Brasil é bem recebido aqui. Tem metade do caminho, apenas, pra chegar em mercados prioritários, como Índia e China, se algum empresário brasileiro resolver produzir na África pra exportar. Você corta aí metade do frete”.
    Por onde o Brasil deveria começar o afunilamento das relações com a África?
    Sem titubear, Neves defende o aumento da ampliação das relações com os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (Palop).
    “O grupo dos Palops, obviamente, é central para o Brasil por causa da língua portuguesa. Isso não tem como fugir. É um dado histórico. A perspectiva é que, a partir de 2081, na próxima geração, as populações somadas de Angola e Moçambique já ultrapassem a do Brasil. Então, em menos de 60 anos, o Brasil deixará de ser o centro do mundo lusófono”.

    O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, durante reunião ampliada com seu homólogo de Angola, João Lourenço, no Palácio do Planalto, em Brasília. Brasil, 23 de maio de 2025 - Sputnik Brasil, 1920, 23.05.2025

    O diplomata sugere, ainda, um segundo grupo que seria interessante para hubs brasileiros.

    “Eu colocaria nesse grupo a África do Sul, obviamente, porque já tem uma infraestrutura, Ruanda, e aí eu explico pelo que Ruanda é um país pequeno, sem litoral, a terra é fértil, mas não é super produtivo, e Ruanda sabe que o único elemento sobre o qual eles podem projetar competitividade é a sua organização interna. Então, Ruanda, invariavelmente, está em primeiro, segundo ou terceiro na África nos rankings de facilidade de fazer negócio, governança corporativa, percepção de corrupção, que é muito baixa”, explica.

    Acordo de livre-comércio Brasil e África: ‘Sonho profissional’

    Imagem de Thomas Sankara é exibida ao lado de seu caixão durante uma cerimônia de sepultamento em Ouagadougou. Burkina Faso, 23 de fevereiro de 2023 - Sputnik Brasil, 1920, 16.05.2025
    ‘Che africano’: por que a figura de Thomas Sankara se tornou símbolo da neodescolonização?

    Durante a entrevista, Neves revelou que conseguir assinar um acordo de livre comércio, seja do Brasil ou do Mercosul com a Zona de Livre Comércio Continental Africana ou com a COMESA, grupo que envolve países da África Oriental e da África Austral, seria “um sonho profissional” e uma “vitória para o Brasil”.

    “Quando os países africanos se tornaram independentes, os países europeus saíram daqui, como metrópoles, deixaram de ser metrópoles, mas deixaram vários acordos de comércio preferencial assinados. É por isso, em grande medida, que os países africanos não conseguiram se desenvolver nas últimas décadas”, afirma.

    Embora os países do continente venham apresentando uma autonomia maior em termos de negociação nos últimos anos, rompendo muitas vezes com ex-metrópoles, ainda há acordos que prendem as nações e fazem com que a balança comercial entre um determinado país com seu vizinho seja extremamente menor do que com um país europeu a muitos quilômetros de distância do seu território.

    “Para o sujeito do Senegal comprar um produto da Tunísia, vale mais a pena ele comprar o produto que foi exportado da Tunísia para a França. Porque a França tem acordos de comércio com a Tunísia e com o Senegal, que incide menos imposto do que se o Senegal vender direto para a Tunísia”, exemplifica.
    Além disso, há a questão da moeda. Muitos países ainda usam o franco — seja o Franco Central e o Franco do Oeste da África —, fazem uso de uma moeda impressa na França. Com isso, os países que usam esse sistema francês, têm que mandar as suas reservas e seu ouro para o Banco da França.
    Diante de acordos desiguais com os europeus, junto ao potencial do continente africano, Neves ressalta que se o Brasil conseguisse assinar um acordo de livre comércio com a África ou com alguma das comunidades econômicas regionais, “seria muito interessante”.
    (Agência Sputnik Brasil)

     

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      Editor chefe da Revista e do site do Maranhão Hoje. Sócio-proprietário da Class Mídia – Marketing e Comunicação

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